Uma notícia sobre resistência bacteriana pode mudar a forma de interpretar uma opção de tratamento, mas não substitui a avaliação do paciente. No caso da Shigella, o ponto central é compreender como transmissão, vigilância e suscetibilidade aos antimicrobianos se relacionam.

A resistência deve orientar a análise, não estimular tratamento por tentativa.

A shigelose se transmite pela via fecal-oral. Contatos sexuais que envolvam exposição a fezes também podem favorecer essa transmissão; isso não significa que surgiu uma via inteiramente nova nem justifica estigmatizar grupos de pessoas.

Em relatório publicado em 2026, o CDC analisou isolados dos Estados Unidos de 2011 a 2023. A proporção de isolados extensivamente resistentes chegou a 8,5% em 2023. Esse resultado descreve a vigilância estudada e não representa a prevalência brasileira.

Nesse monitoramento, resistência extensiva corresponde à resistência a ampicilina, azitromicina, ceftriaxona, ciprofloxacino e trimetoprima-sulfametoxazol. São cinco medicamentos avaliados, não cinco classes farmacológicas distintas.

Um resultado de vigilância descreve uma população e um período específicos. Aplicá-lo diretamente ao paciente, sem considerar o contexto clínico e os dados microbiológicos disponíveis, pode levar a conclusões inadequadas. Para a farmácia, o aprendizado está em reconhecer a necessidade de avaliação e de informação confiável antes de discutir alternativas terapêuticas.

Na farmácia comunitária, a procura por um antimicrobiano para diarreia exige atenção. O profissional deve orientar avaliação quando necessária e evitar sugerir trocas ou prolongamento por conta própria. A formação sobre critérios de dispensação pode apoiar essa atuação.

Aprofunde os critérios de dispensação no curso sobre a RDC 471.

Leia também: antimicrobianos no hospital e continuidade do cuidado.

Em serviços de saúde, a análise da farmacoterapia deve considerar a prescrição, o quadro clínico e a informação de suscetibilidade quando disponível. A conexão entre hospital e continuidade do cuidado também é discutida no artigo sobre antimicrobianos no hospital.

Comunicar o problema com precisão ajuda a preservar opções terapêuticas e evita transformar uma notícia em recomendação individual. A mensagem não é que toda infecção seja resistente, mas que a escolha não deve ser guiada apenas por hábitos anteriores.

Referências: CDC. Emergence of Extensively Drug-Resistant Shigellosis — United States, 2011–2023. MMWR, 2026. https://www.cdc.gov/mmwr/volumes/75/wr/mm7513a1.htm

CDC. Increase in Extensively Drug-Resistant Shigellosis in the United States. Health Alert Network, 2023. https://www.cdc.gov/han/2023/han00486.html